Ataque de Pânico ou Problema Cardíaco? A verdade sobre os sintomas físicos do medo extremo

Coração acelerado, falta de ar e uma sensação de morte iminente. Fui às urgências e disseram-me que “é só ansiedade”. Entenda o que é um ataque de pânico, como o distinguir de um enfarte e como tratar.

A dor de ouvir que “é só ansiedade”

Imagine a seguinte cena: está tranquilamente sentado no sofá, ou talvez a conduzir de regresso a casa após um dia de trabalho. De repente, o seu coração começa a bater de forma descontrolada. Uma dor aguda surge no peito, a respiração torna-se curta, as mãos começam a suar e a formigar. Uma sensação avassaladora de que vai desmaiar, ou pior, de que a sua vida está a chegar ao fim, toma conta de si.

Desesperado, dirige-se às urgências do hospital mais próximo. Faz eletrocardiogramas, análises ao sangue, exames de rotina. Após horas de angústia, o médico aproxima-se com os resultados e diz a frase que tantos pacientes escutam: “Os seus exames estão perfeitos. Não tem nenhum problema físico. Isto é só ansiedade.”

Se já passou por isto, sabe que a palavra “só” soa quase como uma ofensa. Como é que pode ser “só” ansiedade se a dor no peito era real? Se sentiu, fisicamente, que ia morrer?

Muitos pacientes chegam à minha consulta de psiquiatria frustrados e com medo, acreditando que os médicos das urgências deixaram escapar alguma doença grave. Contudo, a verdade clínica é fascinante e assustadora: o nosso cérebro tem o poder de simular um enfarte com uma precisão impressionante.

O que é um Ataque de Pânico? (O sistema de alarme avariado)

Para entender o pânico, precisamos de olhar para a evolução humana. O nosso cérebro possui um “sistema de alarme” primitivo (a amígdala) concebido para nos proteger de perigos reais. Se um leão entrasse na sua sala agora, o seu cérebro dispararia uma descarga massiva de adrenalina: o seu coração aceleraria para bombear sangue para os músculos, a respiração ficaria curta para captar mais oxigénio e as suas pupilas dilatariam. É a resposta de “luta ou fuga”.

O problema ocorre quando este sistema de alarme avaria. Num ataque de pânico, o cérebro dispara essa mesma descarga massiva de adrenalina, mas não existe nenhum leão na sala.

O seu corpo reage a um perigo extremo e imaginário com sintomas físicos reais. É por isso que o seu sofrimento é legítimo. A dor no peito é real, a falta de ar é real. O corpo está, de facto, a lutar pela sobrevivência, apenas não percebeu que a ameaça não existe no mundo exterior.

Ataque de Pânico vs. Problema Cardíaco: Como distinguir?

Apenas um médico pode (e deve) descartar problemas cardíacos. Nunca deve ignorar dores no peito. No entanto, se já foi avaliado e o seu coração está saudável, existem algumas pistas clínicas que ajudam a diferenciar uma crise de ansiedade de um evento cardíaco:

1. A rapidez com que o pico é atingido Um ataque de pânico atinge a sua intensidade máxima de forma brutal e muito rápida, geralmente em cerca de 10 minutos, começando depois a diminuir gradualmente. Os sintomas de um ataque cardíaco tendem a agravar-se de forma contínua ao longo do tempo.

2. O tipo de dor no peito No pânico, a dor costuma ser aguda, em “pontada”, localizada num ponto específico, e pode alterar-se com a respiração. Num evento cardíaco crónico ou agudo, a dor é frequentemente descrita como um “peso” ou uma pressão esmagadora no centro do peito, que pode irradiar para o braço esquerdo ou para a mandíbula.

3. O fator desencadeante Embora os ataques de pânico possam surgir “do nada” (mesmo durante o sono), muitos enfartes ocorrem após um grande esforço físico (como subir muitas escadas). O pânico é puramente neurológico e emocional.

“Mas porquê agora? Eu nem estava estressado!”

Esta é a pergunta número um no consultório. O paciente relata que estava a ver televisão ou a jantar com amigos quando a crise surgiu. “Eu estava relaxado, Dra. Joice, por que é que tive uma crise?”

Pense no seu sistema nervoso como um copo de água. Durante meses ou anos, foi despejando gotas de stress crónico nesse copo: problemas financeiros, luto mal resolvido, noites mal dormidas, pressão no trabalho, excesso de cafeína. O copo foi enchendo silenciosamente. O ataque de pânico no sofá não aconteceu por causa do sofá; aconteceu porque foi ali que o copo transbordou. A crise é a forma de o seu cérebro gritar: “Não aguento processar mais nada!”

O verdadeiro perigo: O Medo de ter Medo

O ataque de pânico em si não é fatal. Ninguém morre de síndrome de pânico. O verdadeiro risco para a sua saúde mental ocorre nos dias seguintes à crise.

A experiência é tão traumática que o paciente desenvolve a “ansiedade antecipatória” o medo constante de ter outro ataque. Começa a evitar os locais onde a crise ocorreu (como o trânsito, o metro ou o supermercado). Passa a monitorizar os seus próprios batimentos cardíacos de forma obsessiva. Sem perceber, o seu mundo começa a encolher. É aqui que o ataque de pânico isolado se transforma num Transtorno de Pânico, frequentemente acompanhado de Agorafobia (medo de sair de casa ou de estar em locais de onde é difícil escapar).

Existe tratamento. Não precisa de viver como refém do seu corpo.

Estatísticas mostram que cerca de 30% da população mundial terá pelo menos um ataque de pânico ao longo da vida. Não é um sinal de fraqueza, nem de loucura. É um sinal de sobrecarga neurobiológica.

A boa notícia é que o Transtorno de Pânico é uma das condições psiquiátricas com taxas de sucesso de tratamento mais elevadas. A abordagem clínica correta não se baseia apenas em dar medicação para “acalmar” na hora da crise. O objetivo da psiquiatria baseada em evidências é recalibrar o seu sistema de alarme.

Através de um acompanhamento cuidadoso, com psicoeducação, regulação do sono e, quando necessário, a introdução temporária de medicação segura (que atua na recaptação de serotonina e ajuda a dessensibilizar a amígdala), é possível recuperar a confiança no seu próprio corpo.

Acredito que cuidar da mente exige tempo, vínculo, respeito e parceria. Aqui, não existe pressa para rotular nem promessas vazias, existe cuidado real, construído consigo.

Sente que as crises de ansiedade estão a assumir o controlo da sua vida? Dê o primeiro passo para quebrar o ciclo do medo. O meu atendimento é 100% online, oferecendo um espaço seguro, ético e confidencial, para que possa ser cuidado no conforto do seu lar, sem enfrentar gatilhos externos.